Atribui-se a Frank Zappa – uma das mais contravertidas personalidades do mundo do rock, também conhecido pelos roqueiros da primeira geração como “O Bruxo” – a conhecida frase: “Quem escreve sobre rock quase sempre é alguém que não sabe escrever, escrevendo sobre quem não sabe tocar, para muita gente que não sabe ler…”

Mexer com a história do rock é cutucar onça com vara curta. Significa selecionar grupos, apontar ídolos, preferir estilos, e tudo isso pressupõe critérios. Inevitavelmente, um deles acaba sendo o gosto pessoal.

Mesmo que não se ouça Hendrix e Joplin todos os dias, negar sua importância para a história do rock é ridículo. Por isso, muitos nomes vão aparecer aqui por causa de sua contribuição específica em determinado momento. Outros nomes, apesar de sua notoriedade, podem ser omitidos. Desde já, fãs e adoradores do rock, mil perdões!

Tudo começou antes do início da segunda metade do século XX. As guerras serviram, entre outras coisas, para acelerar vertiginosamente a produção industrial dos Estados Unidos. Os negros do sul, descendentes de negros escravos das lavouras, que vinham cultivando sua música de raízes africanas, acabaram por se constituir na grande massa de operários do norte e do oeste, formando guetos por todo o território americano. Nessa condição, espalhavam-se seus tipos básicos de música: rythm’n’blues (R&B), gospel e ballad.

Esses gêneros musicais não chegavam a atingir a massa, como mais tarde aconteceria, nem o público wasp ( sigla para white, anglo-saxon and protestant, que se refere aos descendentes dos colonizadores europeus brancos, anglo-saxãos e protestantes), envolvido com um tipo próprio de música, predominantemente marcada pelas grandes orquestras. Porém, com as constantes migrações de populações negras em função da permanente busca de trabalho, desenvolvia-se um novo e poderoso mercado consumidor, que iria modificar os padrões da industria fonográfica, não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo.

No entanto o blues (negro) e o country & western (brancos) começaram a se aproximar, quando Jack Breston resolveu acelerar o andamento do seu rythm’n’blues em “Rocket 88” (arquivo mp3, 2 Mb), originando assim o primeiro single de rock de que se tem notícia, ainda nos anos 40. Já Arthur “Big Boy” Crudup não só aumentou o andamento como também trouxe aquela urgência eletrizante, que passou a ser a principal característica rock. “My Baby Left Me” (arquivo mp3, 1.60 Mb) é o exemplo mais puro do rock como ele ficaria conhecido anos mais tarde. Não é à toa que Elvis gravaria “My Baby Left Me” em suas primeiras gravações.

Já em 1945, a partir das alterações que a Segunda Guerra Mundial trouxe à cultura americana, surgiram as primeiras casas especializadas no mercado negro da música, e, conseqüentemente, estações especializadas na divulgação desse tipo de música.

Os gêneros blues e country & western, originários de regiões pobres como Memphis e Mississipi, caracterizados por letras faladas e ritmos espontâneos, começaram a ser divulgados nacionalmente. Cultivados naquela parte dos EUA desde a Guerra de Secessão, sempre abordaram temas como jogo, bebidas, drogas, sexo, corrupção… Com esses gêneros tais temas começaram a ganhar os centros urbanos, valorizando o que antes era tido como música e dança de negro, de periferia, essas coisas… Essa foi a época do surgimento e do apogeu de B. B. King, Lloyd Price, Mudy Waters e Fats Domino, por exemplo.

Se essas formas populares, apesar de seu tremendo sucesso entre os negros, demoraram a conquistar o grande público por serem consideradas excessivamente periféricas, sujas e vulgares, a música negra foi ganhando o mercado branco com suas outras duas formas: gospel e ballad. A primeira era praticada por negros evangélicos, dentro de suas igrejas, num estilo que reunia o tom vocal melancólico e suplicante de origem africana com uma harmonia de característica tipicamente branca. A segunda, de características muito próximas às da primeira, conquistou facilmente o mercado branco, em função do ritmo atenuado, com a presença de diálogos vocais cantados em solo. O estilo gospel pode ser representado por Midnighters, Drifters, e Five Royales; o estilo ballad, por Moonlighters, Flamingos e The Platters.

Foi nesse contexto de aproximação entre música negra e branca que Allan Freed, um disc-jóquei de Cleveland, Ohio, percebeu que a música negra era um filão mercadológico consumível pelo branco, desde que fosse rotulado com um nome mais “light”, livre de preconceitos. Freed então trocou os nomes de origem, demasiadamente negros, por algo mais branco: era então batizado o novo gênero de “rock’n’roll”, união de duas gírias da época que poderíamos traduzir mais ou menos como “transar no carro”.

Na esteira desse sucesso com o mercado branco, as gravadoras independentes conseguiram colocar paulatinamente seus hits de vendagem, chegando a alcançar, em 1955, a espantosa cifra de 20% na relação dos mais vendidos. Nessa época, as gravadoras americanas, considerando que tudo não passava de moda passageira, acabaram perdendo a oportunidade de atacar o novo mercado. Apenas em 1956 elas despertaram para o fenômeno que, em face de suas características, já fizera a fama de muitas gravadoras marginais, como a Atlantic, a Sun Records e a Jubilee, entre outras.

Coube, por exemplo, à inexpressiva Memphis Recording Services, uma empresa que gravava artistas amadores em acetato por US$ 1,00 (!), a proeza de descobrir um gênio.

No verão de 1953, Elvis Aaron Presley resolveu parar seu caminhão na porta da Memphis para gravar “My Happiness” e “That’s When Hearthaches Begin”, para dar o acetato de presente de aniversário para sua mãe. A gerente do estúdio, Marion Keisker, primeiro impressionada com a timidez do rapaz, depois com sua voz, consegue gravar em fita parte de “My Happiness” e “That’s When Hearthaches Begin” inteira. Marion anota o nome e o endereço do rapaz. Em uma segunda ida ao estúdio, dez meses depois, Elvis mostra a Sam Phillips, o proprietário da Memphis Recording Services e também da Sun Records, várias baladas. Phillips se impressiona com a emoção que o garoto coloca nas músicas. Paralelamente, Sam vinha trabalhando com um jovem guitarrista chamado Scotty Moore, que tocava num grupo chamado Starlite Wranglers. Sam contou a Scotty sobre aquele cantor de costeletas que o havia impressionado. Marion prontamente forneceu o endereço de Elvis.

No primeiro contato Elvis vai à casa de Scotty e, juntamente com Bill Black, baixista dos Wranglers, tocam algumas canções numa tarde de domingo.

Na 2ª Feira, dia 6 de julho de 1954, Elvis, Scotty e Bill reúnem-se nos estúdios da Sun para o que deveria ser apenas uma sessão de ensaios. Após gravarem algumas baladas, durante um intervalo, Elvis pega a guitarra e começa a cantar That’s All Right, acompanhado por Scotty e Bill. Sam Phillips pede que repitam a música, desta vez com o gravador rodando. Duas semanas depois, em 19 de julho, a Sun lança That’s All Right (arquivo mp3, 1.30 Mb) e Blue Moon of Kentucky, dando início ao furacão rock’n’roll.

Foi exatamente da Sun Records que a RCA adquiriu o contrato milionário de Elvis, cuja grande marca seria, em um futuro próximo, a de grande divulgador do rock nos Estados Unidos e no mundo. Adquirido literalmente por 30 mil dólares e um Cadillac, Elvis levou em sua bagagem um gênero conhecido como country rock, ou mais especificamente sua variação, o rockabilly. Essa variação, por si só, em razão de ser um gênero da música caipira branca, já naquela época era uma prova de que o rythm’n’blues negro fora bem assimilado pela cultura musical branca. E com Elvis vendendo 100 milhões de discos, estaria definitivamente consolidado o gênero musical que se disseminou pelos quatros cantos do mundo, o rock’n’roll.

O rockabilly, por assim dizer, é uma das variáveis mais genuínas do rock. Incorporada ao rock pela via dos estilos western e country, conforme já citado, ele surgiu, portanto, da incorporação dos gêneros rurais, produto de uma prática musical importada da Europa, aos elementos formadores do rock (gospel, blues e ballad). Os pioneiros, quase todos ingleses ou irlandeses – sem esquecer os franceses que se fixaram no sul dos Estados Unidos – contribuíram significativamente para a geração de uma música rural branca. Ela foi, durante muito tempo, a principal música produzida, executada e ouvida nos grandes centros mineiros, madeireiros e pecuários daquele país. Era o tipo de música bem comportada, e por isso mesmo bem tolerada pela sociedade americana.

O principal lançamento musical do gênero rockabilly é nada mais, nada menos, que o primeiro disco de Elvis Presley, de 1954. Tem como características fortes a batida fora de tempo tomada do country, o contrabaixo acústico e a guitarra sem distorção.

A partir de então o rock e seu ritmo bem marcado pela bateria, as letras cantadas bem alto e quase sempre enfocando temas nada convencionais, o rebolado até então considerado um tabu e as novas e agressivas formas de se dançar, principalmente nos bailinhos de fim de semana, organizados tradicionalmente em colégios locais, tudo servia para afrontar o sistema.

A essa altura o mercado fonográfico não se engana mais com a identidade popular do novo ritmo. Sexo, juventude, muita dança e muito ritmo envolvem as cópias de discos, que se vendem aos milhões. São incontáveis os nomes de artistas que se consagram a partir daí, a exemplo de Bill Haley, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino, Gene Vincent e Paul Anka.

No Brasil em particular, a exibição do filme No Balanço das Horas (Rock Around Ten O’clock), em 1957, detonou o movimento do rock. Esse movimento teve em Tony e Celly Campelo, além de Sérgio Murilo e outros nomes famosos, seus principais intérpretes. Com eles a juventude brasileira teve acesso aos hits americanos, que eram traduzidos para o português, iniciando uma onda de versões. Uma música que, embora se apresentasse em língua nacional, era pura música estrangeira. A Jovem Guarda acaba por afirmar um gênero estrangeiro, o rock, como música nacional.

Lá pelo fim da década de 1950 a situação se complica. O sucesso da música negra coincide com o acirramento dos conflitos raciais nos Estados Unidos, e a música caminha cada vez mais para a politização. É também o momento em que se lançam os Beatles e os Rolling Stones. A assimilação da música negra americana (sem o componente racial) pelas bandas britânicas possibilita uma boa mediação a música e o mercado. Os Beatles, por exemplo, invadem os estados Unidos em 1965 por meio da televisão. Nos Estados Unidos, o rock passa a ser considerado Gênero musical típico de adolescentes. É o momento em que surgem, por exemplo, Jimmy Hendrix, Bob Dylan, Crosby Still and Nash, Jefferson Airplane e toda a “Geração Woodstock”.

No final da década de 1960 a politização também chega ao rock brasileiro, com a Tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Os Mutantes. Paralelamente à Tropicália, traça seu caminho solitário outro baiano, o roqueiro Raul Seixas. Já nos anos 70 a marca passa a ser Baby Consuelo, Pepeu Gomes e os Novos Baianos.

“O sonho acabou…” – essa frase de efeito, que serve para determinar o fim do grande movimento político e musical da juventude em todo o mundo, indica o ano de 1968 como divisor de águas na transformação da música em elemento de consumo, relegando seu conteúdo ideológico a segundo plano. Não chegou a haver a revolução esperada. A indústria abocanhou todas as formas de protesto, transformando-as em peças de consumo imediato. Morrem os ídolos revolucionários da música, como Jimmy Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison.

Achando-se esgotado o rock enquanto veículo natural dos protestos da juventude, percebe-se que não faltaram esforços para tentar dotá-lo do status de música instrumental. Esses esforços são parte de todo um movimento, caracterizado pela fusão de rock, jazz e música clássica, que levou o nome de fusion. É também o rock progressivo de conjuntos como Genesis, Moody Blues, Tangerine Dreams e Yes, por um lado, e o início do chamado rock pesado, por outro. Este, pai do heavy metal, surge com Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Mas aí já temos uma outra e longa história…..