“Pernambuco tem uma música que nenhuma outra terra tem”, os versos que iniciam o frevo-canção “É Frevo, Meu Bem”, de Capiba, transcendem à mera manifestação ufanista do compositor. Diferentemente dos outros gêneros da música popular brasileira, o frevo tem origem em um único estado: Pernambuco. E mais, é exclusivamente do Recife. Indo mais longe: recifense de uns poucos bairros – São José, Boa Vista, Santo Antônio.

Também difere de outros gêneros por não ter origem folclórica. Nasceu do povão, é certo, mas não do reaproveitamento de músicas preexistentes, de domínio público, peças colhidas por compositores letrados. O frevo é uma música feita por indivíduos. Tem sempre autor certo e sabido, com assinatura embaixo. “O povo do Recife nunca fez, nunca compôs um frevo”, diz Valdemar de Oliveira.

A afirmação de Oliveira tem algo de exagero, e muito ranço das classes dominantes pernambucanas, às quais o mesmo pertencia. Afinal, os primeiros criadores de frevo saíram do povo e de associações de classe, a exemplo do Clube Mixto Vassourinhas, fundado por varredores de rua. No entanto, o que não se discute é sua ausência de débito para com a música folclórica, já que seus autores são sempre conhecidos. O frevo não é, como o samba, de muitas mães assumidas e de muitos pais duvidosos, ele tem até genitor legítimo, e até testemunha ocular do parto, no caso o escritor e jornalista Mário Melo. Dizia ele em 1938: “É o frevo legitimamente pernambucano. Assisti-lhe o nascimento. Conheço-o, portanto, muito de perto”.

Segundo Mário Melo, o genitor do frevo foi o regente da banda do 40 º Batalhão de Infantaria do Recife, José Lourenço da Silva, o capitão Zuzinha, pernambucano de Paudalho, na Zona da Mata do estado: “Foi ele quem estabeleceu a linha divisória entre o que depois passou a chamar-se frevo e a marcha-polca, com uma composição que fez época”. Melo não cita o nome desse frevo seminal, mas mais tarde Nelson Ferreira o batizaria de “Divisor de Águas” e o gravaria com sua orquestra.

O passo, que é a dança do frevo, por incrível que possa parecer, periga seguir o mesmo destino do xaxado. Tende a acabar estilizado, restringindo-se a eventuais apresentações para turistas. A coreografia originalíssima, até os anos 60 era completamente inseparável do frevo. Não se concebia a música sem um passista esbanjando “saca-rolhas”, “parafusos”, “tesouras”, “dobradiças”, alguns dos vários movimentos que fazem parte da dança. O frevo nunca se guiou por regras rígidas. Cada passista pode inventar um movimento enquanto está “fazendo o passo”. Atualmente ainda se vê um ou outro dançarino, sem a outrora indefectível sombrinha à mão, evoluindo diante de uma orquestra de frevo, porém vão se tornando tão raros que chamam a atenção quando o fazem.

Os passistas que emprestavam uma graça toda especial ao carnaval recifense, com suas camisas listradas, chapéu de palhinha, calças coloridas, sapatos brancos e sombrinhas multicolor, começaram a desaparecer com os megabailes carnavalescos dos anos 70. Alguns clubes de classe média, como o Português, atraíam de 30 a 40 mil pessoas. Em tal ambiente era impossível conseguir o espaço que a liberdade do passo exige.

Valdemar de Oliveira, agora em 1945, preconizava-lhe a morte: “A perspectiva é de o passo, a continuar as coisas como vão, desaparecerá primeiro que o frevo. Esclareça-se: a música permanecerá além da dança autêntica. Ficará servindo ao falso passo do salão, a um ou outro folião de rua, ao acompanhamento de clubes e troças cada vez mais franzino”.

Mas quem nasceu primeiro, o frevo ou o passo? Pela lógica, a música tende a nascer antes da coreografia. No caso do frevo, parece que ambos nasceram juntos.

O frevo é um amálgama dos gêneros musicais ouvidos no Recife no final do século XIX e início do século XX. Mescla de elementos de maxixe, polca, dobrado, modinha, quadrilha. Do passo, não se tem dúvidas: surgiu de capoeiristas que acompanhavam as bandas de música pelas ruas do Recife, fazendo suas evoluções diante delas. Eram os chamados valentões, ou desordeiros, que também praticavam das suas durante apresentações dos pastoris profanos. Esses grupos de capoeiristas, munidos de espetos ou chuchos (armas rudimentares pontiagudas, forjadas em peça única de ferro, ainda hoje muito usadas em penitenciárias) saíam à frente dos desfiles, disputando entre si a honra de quem furaria o bombo da banda primeiro.

No Recife, particularmente desde meados do século XIX, as rivalidades dos partidos de capoeiras costumavam se manifestar no extremado partidarismo pelas bandas de músicas existentes na cidade. Dessas disputas, tornaram-se célebres os confrontos entre os capoeiras que apoiavam a banda militar do 4º Batalhão da Artilharia, o famoso Quarto; e os que eram defensores do Espanha, banda de música do corpo da Guarda Nacional, dirigida pelo espanhol Pedro Garrido. Desde então, até o início do século XX, quando foram rigorosamente reprimidos pela polícia, o gosto dos capoeiristas pelas bandas de música – que costumavam seguir à frente, abrindo passagem, pulando, saltando – e as rivalidades que entre elas se instalavam tornaram-se parte da história e da cultura da cidade.

Como exemplo da notoriedade dessas rivalidades, veja a cançoneta citada por Rita de Cássia Barbosa de Araújo em seu livro “Festas, Máscaras do Tempo, Entrudo, Mascarada e Frevo no Carnaval do Recife”, premiado pela Fundação Cidade do Recife, em 1992:

“O Capadócio

Se ouço na rua
Tocar a charanga
Me ponho na frente
Alegre a saltar
Não conto desgraças
Quebrando cabeças
Virando moleques
De pernas p’ra o ar”

Não raro essas disputas descambavam para o confronto armado, com capoeiristas sentindo na pele o ferro dos espetos e dos chuchos mais tarde substituídos por cacetes de pau de quiri e, finalmente, pelas sombrinhas.

Não é difícil imaginar que, influenciados pelos capoeiristas, ou querendo livrar-se logo deles, os músicos tenham alterado o andamento de suas marchas, acelerando-as. Os capoeiristas, por sua vez, foram criando passos adaptados ao novo andamento. Dessa forma a pergunta sobre quem nasceu primeiro está respondida: ambos evoluíram juntos, numa rara interação entre música e dança.

Sobre o nome dele, há unanimidade entre os pesquisadores do frevo: vem de uma corruptela de ferver, muito usada em Pernambuco para agitação, confusão rebuliço. Para o povo “ferver” sempre foi “frever”. E o frevo, como o samba e o forró, a princípio designava uma situação, não um gênero musical. Um samba era uma reunião festiva, ou uma confusão, assim como o forró queria dizer uma festa, e “frevo”, tanto um aglomerado, uma confusão, como uma “onda” que acompanhava as orquestras nos carnavais do início do século.

Há unanimidade também de que a palavra frevo, designando um gênero musical, foi estampada pela primeira vez na edição de O Jornal Pequeno, num Sábado de fevereiro de 1907, numa nota em que Paula Judeu agradecia o convite para participar do baile carnavalesco do Clube Empalhadores do Feitosa, e repetia o repertório a ser tocado no baile: “Marchas – “Priminha”, “Empalhadores”, “Delícias”, “Amorosa”, o “Frevo””, “O Sol”…. E note-se que o termo não foi criado pelo jornalista, era o título de uma marcha. No ano seguinte o mesmo Paula Judeu registrava novamente a palavra, e em 1909 tudo indicava que ela já estava consolidada, designando uma “onda” formada pelos foliões que acompanhavam os clubes, mais do que a música que acompanhava essa onda. Uma charge de capa d’O Jornal Pequeno trazia embaixo a frase: “Olha o frevo!”.

Graças a uma dinâmica divulgação provocada pelo pioneirismo da gravadora pernambucana Rozenblitz, o frevo seria tão popular nos estados nordestinos quanto em seu estado de origem, conforme atesta Gilberto Gil:

“O frevo era uma coisa que tinha muita força, maracatu não muito, porque o maracatu não era muito divulgado em disco, não se traduzia muito nas composições de música popular. Mas o frevo, não. O frevo nos carnavais era muito tocado. O trio elétrico é o frevo, eletrificado, mas é o frevo. “Vassourinhas” foi o primeiro grande sucesso do trio elétrico, e é um frevo pernambucano”.

A influência pernambucana no carnaval baiano é contada com mais detalhes por Leonardo Dantas Silva.

Segundo ele, em 1950 o Clube Carnavalesco Mixto Vassourinhas fez sua primeira visita ao Rio de Janeiro. De passagem por Salvador, o Vassourinhas foi convidado para uma apresentação. O clube desceu completo as escadas do navio, seu rico estandarte alçado ao vento, morcegos abrindo a multidão (passistas fantasiados, que desfilavam na frente dos blocos, abrindo espaço, fazendo o passo com braços abertos), diretoria vestida a rigor, damas de frente e fantasias de destaque, tudo ao som de uma fanfarra de 65 músicos.

Ao ingressar na avenida Sete de Setembro, ao som de sua “Marcha no. 1”, conhecida nacionalmente como “Frevo das Vassourinhas”, a rua tomo-se de delírio. Os baianos ficaram ensandecidos. Salvador via pela primeira vez a “onda”. Os baianos, não acostumados ao acompanhamento de um clube de frevo, em que a orquestra é intocável, atropelava os músicos, provocando vários acidentes. A confusão foi de tal monta que o Vassourinhas foi obrigado a abreviar o desfile, refugiando-se no Palácio do Governo.

Mas a semente estava plantada.

Um mês mais tarde, Dodô e Osmar tiveram a idéia de pôr um som amplificado num calhambeque (a velha “Fobica”). Munidos de dois instrumentos, cavaquinho e violão elétrico, eles percorreram as principais avenidas de Salvador tocando o repertório do Vassourinhas. A partir do Carnaval seguinte o tocador de triolim (espécie de cavaquinho elétrico) Themístocles Aragão seria convocado por Dodô e Osmar para fazer o carnaval com eles (agora o “trio” era “elétrico” mesmo!).

Em 1959, o trio de Dodô e Osmar participou do carnaval pernambucano contratado pela Coca-Cola, que pretendia entrar em Pernambuco. O trio era tão desconhecido fora das fronteiras baianas que o Diário de Pernambuco (de 3 de fevereiro de 1959) anunciava erroneamente: “Trem Elétrico (sic) da Coca-cola se apresente pela primeira vez em Pernambuco”.

Essa pioneira “invasão” do frevo plugado pelas ruas do Recife foi vista como mera curiosidade, e até com certa simpatia pelo recifense, que torce o nariz (pelo menos os mais conservadores), quatro décadas depois, para os baianos, cujos blocos de axé music e trios plugados já estão praticamente incorporados ao carnaval da cidade, para desespero dos puristas.

Em 1993 um vereador de Olinda, Fernando Gondim, chegou a tentar barrar a invasão dos “baihanos” por decreto. Uma lei de sua autoria, aprovada por unanimidade pela câmara de Olinda, proibia a execução de axé music na cidade durante o carnaval, e ainda obrigava as orquestras contratadas para animar os bailes a incluir no repertório no mínimo 60 % de frevos. Afora discussões acaloradas, essa lei não rendeu nada para a música pernambucana. A pá de cal definitiva atirada sobre ela foi dada pelo maior autor de frevos, Capiba: “Essa lei é um verdadeiro Muro de Berlim. Não podemos cercear outros ritmos” (declaração à edição regional de Veja, de fevereiro de 1993).